Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Ab Aeternum

"Woman are meant to be loved, not to be understood."
Oscar Wilde

... era ela, novamente. Apoiada suavemente com a cabeça em seu peito, a mão envolta em seu pescoço, transitando entre o real e o etéreo, deixando-se levar pelo aconchego e pela segurança que sentia. Cedia à vontade de repousar ali mesmo, e assim o fazia. Ele, absorto nestes pensamentos agora transcritos, buscava mentalmente em todas as histórias de amor já escritas ou vividas ao longo de toda a humanidade as sutis razões que o fizeram, tão subitamente, tornar-se prisioneiro de todos aqueles sentimentos que agora o faziam perder o sono.

A nostalgia que tomou conta de ambos desde os primeiros instantes em que se conheceram revelava uma longa história, traçada através das areias de um tempo distante. A atração estética os havia aproximado novamente, enquando as divagações acerca do universo e da vida haviam provado a afinidade intelectual, fruto da convivência e do conhecimento mútuo acumulado ao longo de tantas jornadas. Batizados a fogo com o nome de anjos e desejos, traziam a marca da ambiguidade e da singularidade que os tornava únicos. Que os tornava um.

Mas estes eram apenas um punhado de idéias e conceitos desconexos a percorrer em movimento caótico seus pensamentos. Ele desistira de compreendê-los. Acariciava os cabelos da amada, e contentava-se em o fazer sem compreender exatamente a razão pela qual o fazia. Não era próprio da razão estabelecer esta sorte de entendimentos.

Ela a amava, e isso bastava.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

Viajante

És viajante, afinal. E como tal, tens a obrigação de transgredir. Sejam as fronteiras, sejam os oceanos, talvez até mesmo as barreiras culturais ou os fusos horários que te separam do teu destino. Mas, sobretudo, transgredir.

Talvez seja esta a essência do viajante. Talvez, aquilo que o move rumo ao que desconhece, ao que lhe tira o sono e lhe arrebata o sonho de alma leva para longe, à distâncias não imagináveis, a ver culturas únicas, a provar gostos e cheiros, a experimentar palavras e medos.

A distância daquilo que é teu exige. Mais do que se possa imaginar. Trata-se da provação constante dos sentidos. De todos os cinco. E é isto que diferencia a sensação de folhear um punhado de fotos e ouvir histórias da experiência de estar lá e fazê-las.

A areia desce ligeira pela ampulheta, e apenas algumas horas e um largo oceano me separam do velho mundo.

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Do poder das reticências

... carregam, em si, o poder de todo o significado ...
... contém tudo, e ao mesmo tempo, nada ...
... dependem do intérprete ...
... dependem do emissor ...
... podem, sim, transcender a palavra ...
... e quando não são escritas ...
... apresentam-se na forma de um olhar seco ...
... um olhar cabisbaixo ...
... um olhar único ...
... um silêncio ...
... ... ...
... reticente ...

Sexta-feira, Julho 21, 2006

Um noite mal dormida leva consigo toda a leveza que pode existir no mundo do dia seguinte. Eis que se passou assim comigo no dia de hoje. Dia de contornos azuis mas com o peso grotesco do chumbo e da prostração.

Uma noite mal dormida devido a pensamentos intermináveis há de ser pior. Ela desgasta. Esgota. Pois eis que pensar é destruir. Pensar é erguer a ponte que leva à descrença atravessando o abismo do delírio, das possibilidades e das conjecturas.

E a vida há de ser leve aos ignorantes, assim como é aos cães, que abstraídos de tudo e do todo, deitam-se ao sol.

Quarta-feira, Julho 19, 2006

(nihil)

"Yet each man kills the thing he loves
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!

Some kill their love when they are young,
And some when they are old;
Some strangle with the hands of Lust,
Some with the hands of Gold:
The kindest use a knife, because
The dead so soon grow cold."


The Ballad of Reading Gaol - Oscar Wilde

Noite escura em que os pesares da alma acordam em fúria. Nem a taça do vinho mais seco é capaz de sorver os pequenos demônios que despertam e atormentam os pensamentos mais distantes. No colorido rubro da taça não reconheço a imagem, distorcidamente refletida entre o cristal e o líquido. Ela parece flutuar, para longe, deixando para trás as coisas que passaram, como se fosse possível com tamanha facilidade e desprendimento...

***

Esta será mais uma noite de sonhos tortuosos, pois a lua crescente já desponta na minha janela, como o sorriso do Gato de Alice. Porém o Gato não está lá, e a lua se mostra vazia, com um sorriso amarelo, a zombar das mazelas que atormentam o mundo.

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Da física moderna

"This most beautiful system [The Universe] could only proceed from the dominion of an intelligent and powerful Being."
Isaac Newton

"Mathematics is the language with which God has written the universe."
Galileo Galilei

Extraído da BBC:
"[Stephen] Hawking, da Universidade de Cambridge no Reino Unido, e seu colega Thomas Hertog, do Laboratório Europeu de Física de Partículas, CERN, em Genebra, Suíça, estão para publicar um paper no qual dizem que o universo não teve um único início. Eles argumentam que ele começou de todas as maneiras imagináveis (e algumas não imagináveis).

A partir desta profusão de inícios, a maioria desapareceu sem deixar qualquer marca no universo que conhecemos. Apenas uma pequena fração destes inícios se misturaram para produzir o cosmos atual, dizem Hawking e Hertog.

Esta, eles insistem, é a única conclusão possível se formos levar a sério a física moderna. ?A mecânica quântica proíbe uma única história?, diz Hertog."

Talvez estejam abrindo espaço para a teoria - de bem mais simples compreensão, é verdade - de que "O Cara" tenha realmente jogado os dados...

Domingo, Julho 16, 2006

Esta é uma casa portuguesa, com certeza...




Segundo a primeira página de quinta-feira, 6 de julho, do diário esportivo lusitano "O Jogo", o país lamenta profundamente a derrota da seleção portuguesa, como é possível comprovar, diante da indignação exposta na chamada de capa.

A foto é do atacante Cristiano Ronaldo, cujo apelido é "puto maravilha" (!) ...

Ora pois.